Geísa Bernardes: quase 50 anos de amor à Ginástica Para Todos

16.08.2020  |    73 visualizações

Discípula de Ilona Peuker abraçou a GPT e fez história na Ginastrada Mundial exercendo vários papéis

Da Redação, São Paulo (SP) - Geísa Bernardes faz jus não apenas a um texto do “Memória de Ouro CBG”, mas a um livro inteiro. Primeira campeã brasileira (1971) da Ginástica Feminina Moderna - hoje Ginástica Rítmica - no Individual Geral, a ginasta resendense integrou também a Seleção Brasileira de Conjunto que representou o País na sexta edição do Mundial, disputada em Roterdã, no ano de 1973. Mas a paixão de Geísa pela Ginástica transbordava e não se restringia à GR: antes de tudo isso, em 1969, tomou parte na delegação que o Brasil enviou para a Ginastrada da Basiléia. Depois ela voltou várias vezes ao mais grandioso evento da Ginástica Para Todos, exercendo múltiplos papéis.

“Geísa é um ícone da GPT, com atuação como ginasta, treinadora, gestora e professora. Divulgou a GPT por todo o Brasil e colaborou muito para o seu crescimento. Tem uma paixão, entrega e competência que fazem dela uma inspiração por sua trajetória de quase 50 anos na GPT e pela forma como construiu esse caminho: sempre humilde, disponível, crítica, rigorosa e compromissada”, afirma Eliana de Toledo, pesquisadora do Lapegi (Laboratório de Pesquisas e Experiências em Ginástica), vinculado à Unicamp. É parte dessa história - alguns dos highlights, como dizem os jovens, que apresentamos esta semana, no “Memória de Ouro CBG.

 

Geísa Bernardes: 50 anos de GPT em alguns parágrafos

Discípula de Ilona Peuker abraçou a Ginástica Para Todos e fez história na Ginastrada Mundial

Corria o ano de 1967, aquele que qualquer fã mediano dos Beatles sabe que foi marcado pela gravação de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Eliana Madeira, colega de Geísa Bernardes no curso de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, deu a dica: havia uma excelente professora húngara que dava aulas de ginástica. “Vai lá que você vai adorar”. Não deu outra. Estava começando uma revolução particular. Geísa gostou tanto, mas tanto, que deu logo uma cortada nos planos de se tornar uma grande jogadora de vôlei. “Eu era muito boa jogadora, tinha futuro mesmo. Jogava no CCRR (Centro Cultural Recreativo Resendense). Mas troquei o vôlei pela ginástica. Foi uma paixão muito mais forte”.

A professora húngara era ela, Ilona Peuker, já mencionada no primeiro texto do “Memória de Ouro CBG” a abordar a Ginástica Para Todos. “Quando Dona Ilona via futuro numa ginasta, ela a puxava pela raiz do cabelo, como todo bom treinador deve fazer, e simplesmente tirava o máximo da gente”, recorda Geísa.

Os olhos treinados da educadora magiar não se enganaram. Em quatro anos, a resendense que jogou a bola de vôlei para longe já faria história: notabilizou-se como a primeira campeã brasileira na Ginástica Feminina Moderna, que hoje chamamos de Ginástica Rítmica. Ela se consagrou no Campeonato Brasileiro de 1971, organizado pela Confederação Brasileira de Desportos, presidida então por João Havelange.

Em novembro de 1973, Geísa já fazia parte da Seleção Brasileira de Conjunto que disputou o Mundial de Roterdã. O Brasil dava alguns de seus primeiros passos em sua bela trajetória na modalidade, e eles foram firmes – alcançou a 13ª posição, à frente de duas representações do continente americano: o Canadá ocupou o 14º lugar, e o México, o 18º. Os países socialistas ocuparam seis das oito melhores colocações, a saber, pela ordem: União Soviética, Checoslováquia, Bulgária, Itália, República Democrática Alemã, Coreia do Norte, Japão e Cuba.    

Antes de todas essas participações memoráveis em competições da GR, a fluminense tomou parte de sua primeira Ginastrada Mundial: a edição da Basileia/1969, na Suíça. Foi o primeiro contato dela com o principal evento da Ginástica Geral, posteriormente rebatizada como Ginástica Para Todos.

As duas paixões tomaram de assalto o coração de Geísa, que leva o G de Ginástica no nome. Em 1970, já formada em Educação Física, ela começara a lecionar cursos de Ginástica no Sesc de São Paulo e na Fiep, de Santos. Depois assumiu a disciplina de Ginástica na Escola de Educação Física de Volta Redonda como professora assistente, divulgando a GPT e a Ginastrada Mundial nos cursos.

Disposta a mergulhar academicamente naquele mundo, concorreu a vagas para cursos de aperfeiçoamento na Ginástica, e pôde colher conhecimento em duas renomadas instituições,Gymnastikschule Medau e Deutsche Sporthochschule (Colônia).

Por conta dos estudos, Geísa encerrou a carreira de ginasta de alto rendimento ainda muito jovem, aos 27 anos. Mas havia uma espécie de imã que voltava a grudá-la à GPT. Naquele ano, 1975, a sétima edição da Ginastrada Mundial foi realizada justamente em Berlim. Surgiu a oportunidade de reencontrar o histórico Grupo Unido de Ginastas (GUG) de Ilona. Geísa foi enviada para a cidade dividida na qualidade de observadora do evento. “O Brasil queria aprender mais sobre a organização do evento”, diz a educadora, que enviou um relatório pormenorizado sobre aquela edição.

No final daquele ano, Ilona dissolve o GUG, mas já havia pupilas para empunhar o bastão – ou o aparelho, melhor dizendo. Ao voltar ao Brasil, incentivada pela mestra magiar, Geísa criou o seu próprio grupo no tradicionalíssimo Clube Monte Líbano, onde dois presidentes da República, João Goulart e João Figueiredo, montaram gabinetes no interior dos quais tomaram decisões importantes.

Abraçada à GPT e à GR, Geísa, com energia aparentemente inesgotável, continuou multiplicando seus conhecimentos, dando cursos e treinando ginastas que se distinguiram em campeonatos nacionais e internacionais.

Em 1995, Geísa, que então treinava o seu grupo para o Copaleme Praia Clube, teve a oportunidade de levá-lo para a Ginastrada Mundial, novamente sediada em Berlim, agora sem o muro. No ano seguinte, ela tomou parte de outro grande evento de GPT, em Riccione, bem pertinho de Rimini, a cidade de Federico Fellini.

Como a vida de Geísa parece ter algo do encantamento felliniano, ela retomou o GUG em 1998. Foi o momento de arregimentar o lendário grupo por um motivo dos mais nobres: homenagear, na Ginastrada Mundial de 99 (Gotemburgo), Ilone, falecida quatro anos antes.

José Carlos Eustáquio dos Santos, então responsável pelo Comitê de Ginástica Geral da CBG, tomou a iniciativa de delegar a missão a Geísa. “Juntamos o antigo grupo depois de 20 ou 30 anos. Ele nos pediu para repaginar o trabalho da Ilone para abrirmos a Noite Brasileira do evento. Depois daquele tempo todo, elas não lembravam da série. Mas o corpo tem memória”, diz a ginasta que Ilone puxara pela raiz do cabelo, numa frase de arrepiar. A coreografia teve também o propósito de celebrar os 20 anos da CBG.

Com o tema “Recordar é viver”, o grupo descongelou os corações nórdicos com uma coreografia criativa, empolgante, movida a ritmos brasileiros, montada com o emprego dos cinco aparelhos da ginástica rítmica.

Jamais saberemos qual teria sido a opinião da exigente treinadora húngara, mas havia muito de Ilona ali: a valorização da cultura brasileira distinguiu-se notadamente como marca autoral de seu trabalho. “Ela tinha uma cabeça muito avançada. Viajou pelo Brasil inteiro para dar cursos, e foi introduzindo aparelhos diferentes nas coreografias: pandeiros, agogôs, reco-recos. Acho que foi no Maranhão que ela teve contato com os coquinhos. Depois de pouco tempo, eles estavam na coreografia”, recorda Geísa, honrada e feliz pela oportunidade que teve de reverenciar a mestra.

A apresentação consagradora motivou o grupo a continuar, sob a liderança da professora resendense. Com o auxílio de outras colegas que atuavam profissionalmente na Ginástica, o grupo embalou e realizou 58 apresentações de 1998 a 2000. De 2005 a 2008, constituiu outra série de espetáculos, que teve como ponto alto a apresentação na Ginastrada Mundial de Dornbirn (Áustria).

Inicialmente sem nome, o conjunto foi batizado de “Grupo Ilona Peuker” (GIP). “A originalidade dessa equipe não está em seu nível técnico, nem poderia, mas na harmonia e na alegria que demonstra e no amor pelo movimento, que transparece em todas as suas apresentações”, declarou Geísa, em entrevista acadêmica.

No período em que não esteve na coordenação do GIP, Geísa integrou a equipe que comandou a Delegação Brasileira na Ginastrada Mundial de 2003, realizada em Lisboa, como membro do Comitê de GPT da CBG. Na capital lusitana, ela se incumbiu de organizar uma vez mais a Noite Brasileira, sendo fundamental para mais um momento memorável, aplaudido de pé.

Segundo a Professora doutora Eliana de Toledo, pesquisadora do Lapegi (Laboratório de Pesquisas e Experiências em Ginástica), vinculado à Unicamp, Geísa teve papel marcante como gestora. Em Portugal, articulou e incentivou os diversos grupos de GPT, visitando quase todos eles em seus estados. “Ela deu atenção e ofereceu sugestões técnicas, aproveitando sua vasta experiência, num belo e profícuo trabalho de formação em GPT em todo o Brasil. E foi muito sensível e perspicaz ao harmonizar todos aqueles grupos para compor os blocos de 15 minutos, de forma que todos pudessem participar de algum modo da Noite Brasileira”, assinala a pesquisadora.

Criativa, Geísa criou uma música curta de destaque: era a senha de que um grupo brasileiro estava prestes a entrar em cena, preparando o público para um momento marcante.

Depois da WG (World Gymnaestrada) de 2007, Geísa foi convidada para colaborar no capítulo “Revivendo meu encontro com a Ginástica Rítmica” do livro Possibilidades da Ginástica Rítmica (coordenado por Elizabeth Paoliello e Eliana de Toledo, Phorte Editora, com a primeira edição publicada em maio de 2010).

“Geísa é um ícone da GPT, com atuação como ginasta, treinadora, gestora e professora. Divulgou a GPT por todo o Brasil e colaborou muito para o seu crescimento. Tem uma paixão, entrega e competência que fazem dela uma inspiração, por sua trajetória de quase 50 anos na GPT e pela forma como construiu esse caminho: sempre humilde, disponível, crítica, rigorosa e compromissada”, afirma Eliana.

           

           

 

 

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