Christal: Determinação inquebrantável

31.08.2020  |    152 visualizações

Corpo forte, mentalidade idem: ginasta em construção, adolescente procura aproveitar ao máximo oportunidade de treinar com a seleção na Missão Europa

Da Redação, São Paulo (SP) - Que Christal, promessa da Ginástica Brasileira, é forte fisicamente, qualquer aficionado da modalidade que a tenha visto competir já sabe. Mas este ano, marcado pela pandemia, tem testado a determinação do jovem talento, e ela responde da melhor maneira, segundo a treinadora Beatriz Estevam, que está presente em Portugal, integrando a Missão Europa.

“Nós tínhamos muitos objetivos nesta temporada. Para que se faça ideia, no início do ano, ela desfrutou de apenas uma semana e meia de férias, porque projetamos um volume de trabalho grande. Quando soubemos que teríamos que ficar em isolamento, foi um desespero”, diz Beatriz, que treina a ginasta também no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, na capital paulista. “Mas encontramos formas de motivá-la, e a CBG ajudou demais, com os treinos online. Quando soubemos que viríamos para cá, ela ficou muito, mas muito animada. Nos treinos aqui, em Sangalhos, pude constatar que ela realmente conseguiu trabalhar bem em casa, preservando o que já havíamos treinado. Provou mais uma vez que tem determinação e resiliência. É bonito vê-la treinando: consigo ver nos olhos dela que está dando o melhor, fazendo seus 100% sempre”.

Mas o que significa os 100% de Christal Bezerra? Por óbvio, sabemos que os 100% de um atleta mediano não seja lá muita coisa. Mas Beatriz, que treina a adolescente desde os oito anos de idade da atleta, tem a convicção de que prepara uma ginasta incomum.

“A Christal tem um corpo excelente para a ginástica. O biotipo dela é forte, muito parecido com o das norte-americanas. Isso ajuda muito para que ela consiga desenvolver exercícios de alta complexidade. Vejo um futuro muito grande na Christal, entre outros motivos, porque o organismo dela suporta uma complexidade de elementos: salta muito alto, é bastante potente. Claro que, por ser muito forte, acaba não sendo tão flexível. Isso é o que a gente tem mais que a trabalhar. O ganho de força é muito rápido, mas a flexibilidade não está nesse mesmo patamar. O esforço que fazemos é para deixá-la cada vez mais alinhada e flexível para poder fazer os movimentos com uma plástica muito boa”, afirma a jovem treinadora, que iniciou a carreira no COTP.

Integrante da Seleção Brasileira que obteve a sétima colocação na competição por equipes do Mundial Júnior de Györ, na Hungria, no ano passado, Christal tem trabalhado com intensidade para ser uma ginasta a mais completa possível. “Por ser muito forte, a Christal faz solo e salto sem muita dificuldade. A trave é mais desafiadora para ela, por não ser muito flexível. É um aparelho que exige mais dela, mas vejo muita dedicação, ela vem evoluindo muito. A gente precisa encontrar formas diferentes de fazer, formas que, por conta do biotipo dela, dão muito certo. Com o tempo, projeto que vá se sair muito bem nesse aparelho também. Outro aspecto que chama a atenção é a habilidade que demonstra nas paralelas. Consigo ver a possibilidade de a Christal ser uma ginasta tecnicamente completa à medida em que for amadurecendo. Observo uma evolução muito boa nesse sentido”.

No próximo dia 10, será possível acompanhar, pela internet, o que Christal é capaz de fazer no atual estágio de sua evolução. A performance dela e de outras grandes ginastas da Seleção Brasileira de Ginástica Artística será exibida no Conexão Portugal, programa criado pela CBG.

Quem tem acompanhado os treinos de Christal percebe que ela agarra a chance de treinar com a nata da Ginástica Brasileira com toda a firmeza. “Quando recebi a convocação, fiquei catatônica. Acho que não dormi até o dia de a viagem chegar. É algo honroso. O peso desta responsabilidade é grande, mas prometi dar meu sangue, aproveitar cada minuto de aprendizado como se fosse o último. Quero chegar ao nível das melhores”.

Christal, que completou seu 16º aniversário em Sangalhos, admite que não é muito fã de leitura – mas escreve muito, e bem. Nos momentos de descanso, costuma registrar suas impressões em seu diário, a exemplo de tantas adolescentes.

“Faço sempre uma análise do que não foi bom e registro por escrito. O pessoal aqui até acha que estou acelerada, mas isso é porque sei que esta oportunidade é muito importante. Com tudo isso que está acontecendo no mundo, estar aqui e vestir a camisa do Brasil é grandioso demais. Por esse motivo, meu comprometimento é 100%. Estou me cuidando ao máximo para não ter nenhuma lesão, pois quero muito trazer medalhas para o nosso país nas próximas competições, como os Jogos Pan-Americanos e todas as outras que vierem”.

A concentração e a atenção aos detalhes são algumas das virtudes da personalidade de Christal. “Anoto tudo o que os meus treinadores Xico (Francisco Porath Neto) e Bia me passam. Também aproveito o melhor que posso as aulas mais completas de ballet com a professora Bruna (Rosa), da GR. Não quero deixar passar nada”, enfatiza a jovem.  

Conversando com Beatriz, é possível perceber que Christal é um dínamo capaz de transformar a carreira de sua própria treinadora. “O início do nosso trabalho foi em 2012. Tinha acabado de me formar em Educação Física e fazia uma transição, de atleta pra treinadora. Meu ex-treinador me chamou pra ser assistente dele. Assumi um grupo de crianças pequenas, de 7 ou 8 anos. A Christal estava entre essas meninas. A gente começou o trabalho bem do zero. Um ano depois, fomos pro Campeonato Brasileiro e ela se dedicou bastante. Já via que ela era uma menina muito dedicada: bastante focada e atenta a todas as correções que eu fazia. Aquele Brasileiro nos mostrou que o trabalho com ela deveria ser diferenciado. No ano seguinte, conseguiu a primeira convocação para a Seleção Brasileira, para participar do Sul-Americano Pré-Infantil.

A presença dela na Seleção foi uma vitória e reforçou a convicção de que tínhamos que investir nela, visando ao alto nível. Fomos crescendo juntas, porque eu era uma treinadora muito jovem. Seguimos confiando uma no trabalho da outra. Pra mim, a Christal é uma menina muito especial. Tive que aprender muito com ela para poder chegar aonde estamos chegando hoje. A gente veio aprendendo juntas, porque somos de um clube (COTP) que não era tão expressivo no meio da Ginástica. Fomos superando várias barreiras para ela mostrar o talento dela e o nosso trabalho. Nosso início foi ótimo, e também a busca para chegarmos ao alto rendimento”.

A carreira de Christal é ainda bastante curta, mas ela já viveu fortes emoções. Uma delas foi consequência da oportunidade de ter contato com Daiane dos Santos. A iniciativa foi obra do projeto Capitu, um trabalho de um grupo de jovens jornalistas que faziam o curso preparatório de focas do Estadão. “Aquela matéria foi bem legal. Eu me senti muito especial, por poder conversar e trocar experiência com minha ídolo e com um mito da ginástica. Serei sempre fã da Daiane pela história dela e pelas conquistas. Pode ter a certeza de que eu sonho fazer um elemento com meu nome, como ela. Ela mora no meu coração e será sempre uma inspiração, pelo resto da vida”.

Na mencionada reportagem, Christal revelou a Daiane que a mãe dela, também fã de nossa primeira campeã mundial, amamentou a futura ginasta pela primeira vez no momento em que a gaúcha entrava em cena para apresentar sua série de solo nos Jogos Olímpicos de Atenas. Christal nasceu no dia 21 de agosto de 2004. O papo, por Whatsapp, emocionou a colecionadora de medalhas de ouro em etapas da Copa do Mundo (soma 9).

Mas a ginasta em construção não é fã apenas de Daiane. Algumas de suas referências hoje são colegas de treino no CT Time Brasil, em Sangalhos, como Flávia Saraiva e Rebeca Andrade. “Meu Deus! Outro dia eu era apenas fã dessas meninas, parece algo surreal. Hoje sou uma delas. Faço parte desta equipe e isso é incrível. Penso na quantidade de meninas que queriam estar aqui. São milhares que batalham para serem ginastas. Sei como é, pois tive que abrir mão de muita coisa, tive que me esforçar muito. É por isso que estou saboreando a chance de estar aqui com elas”.

Como ocorre em qualquer grupo coeso, as ginastas mais experientes estão dando um belo suporte à novata. “Elas são meninas nota 1000, pois me ajudam em tudo. Como sou nova, nesta viagem a Portugal elas me emprestaram coisas que esqueci. Quando fiquei com medo de dormir sozinha, elas me acolheram. E nos treinos, então? Dão dicas sobre tudo. Fazem com que eu me sinta muito à vontade. Passei meu aniversário de 16 anos aqui em Sangalhos. Quando acordei, senti muitas saudades por não poder viver aquele momento com minha família, mas no decorrer do dia elas fizeram o meu dia ser muito especial. Foi inesquecível”.

 

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