Barbara voltou a trabalhar. E nada a faz tão contente

20.10.2020  |    115 visualizações

Verdadeira operária da Ginástica Rítmica, ginasta treina com foco na disputa da vaga olímpica

Da Redação, São Paulo (SP) - “Essa moça é um touro”, admira-se Marcia Naves, contente por estar onde está (no ginásio da AGIR, a Associação de Ginástica Rítmica Curitiba), fazendo o que gosta: treinando Barbara Domingos.

A vice-campeã dos Jogos Pan-Americanos de Lima na prova individual de fitas e quarta colocada no individual geral ficou afastada por seis meses do querido ginásio no bairro de Capão da Imbuia – e já está trabalhando na capital paranaense há três semanas. Foram quatro meses fora do ginásio por força da pandemia e quase dois meses no Centro de Treinamento de Ginástica Rítmica, em Aracaju, onde se submeteu a tratamento fisioterápico para tratar os efeitos de uma lesão no quadril, com a qual terá que conviver por um tempo.

“Eu estava bem preocupada, porque foi muito tempo sem ela fazer sequer um espacate. Na nossa primeira semana de trabalho aqui, eu estava me perguntando quanto tempo levaria para ela retomar aquela condição dela. Mas na segunda semana já deu sinais de que voltaria rapidamente. Ela tem uma memória motora incrível”, diz Marcia.

“Felizmente deu tudo certo na reabilitação, em Aracaju. Estamos fazendo treinos bem gradativos, e temos suporte de profissionais excelentes. Não perdi tanto assim da minha condição física e agora teremos quase oito meses para fazer uma lapidação”, afirma Barbara. Em maio, ela vai tentar obter a tão sonhada vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2021 no Pan-Americano de GR. Ainda não foi determinada qual será a sede da competição.

Em setembro do ano passado, Barbara conseguiu a 31ª colocação no individual geral no Mundial de Baku. As norte-americanas Evita Griskenas (8ª) e Laura Zeng (10ª) conquistaram as vagas olímpicas, e esgotaram a cota de seu país. A ginasta mais bem colocada no classificatório continental se garantirá em Tóquio. Em Baku, Barbara foi a melhor ginasta das Américas depois das duas atletas dos EUA.

Uma das grandes adversárias de Barbara será a capixaba Natália Gaudio, 44ª em Baku. Em Lima, Natália obteve o bronze no individual geral – a paranaense ficou a apenas 0,05 de distância, levando a pior no desempate (as notas de execução).

Durante os treinamentos, Barbara terá que se segurar para fazer menos repetições, porque sofre de síndrome do impacto no quadril. Trata-se de um desafio, porque a ginasta sempre se caracterizou por treinar muito. Ela tem miopia e astigmatismo, e treinou sem óculos dos 9 aos 12 anos de idade, quando colocou lentes.

“Eu me acostumei a treinar o triplo de repetições que as outras meninas faziam para sincronizar tudo direitinho, porque eu não via o aparelho direito. Mesmo depois que coloquei as lentes, continuei trabalhando bastante para ganhar confiança”.

Tanto esforço fez de Barbara uma ginasta estável. “Ela logo se caracterizou por ir bem em todos os aparelhos. Logo em sua primeira competição, aos nove anos de idade, já foi quarta colocada. Não era de seu feitio errar”, recorda Marcia.

Marcia fixou os olhos em Barbara desde que a garota tinha apenas seis anos de idade, e treinava na turma de Ginástica Artística. “Eu logo me apaixonei por ela – fazia tudo certinho, esticadinha. Gostava de ver os treinos da Ginástica Artística para aprender um pouquinho mais sobre o trabalho de força.

Graças ao interesse de Marcia, Barbara passou a treinar com a turma da GR. A recém-chegada não era vista pela treinadora como dona de um talento gigantesco - diferenciava-se porque seu nome era trabalho – e ainda é. “Achava que iria se tornar uma ginasta de qualidade, mas com possibilidade de poder ir disputar o Campeonato Brasileiro apenas, algo assim. Com o tempo, fui vendo que ela tinha uma disposição incomum pra treinar. Sempre que eu olhava, ela estava lá no cantinho dela, trabalhando: repetia, repetia, repetia. Não sentava, não conversava. É incrivelmente guerreira, determinada, não dá o chamado ‘migué’”.

A fama de “Caxias” não a tornava muito popular no meio. “No final do ano, ela entrava no conjunto, e queria ir bem também nessas disputas. Aí ela pedia para as colegas pararem de conversar, para treinar mais, e começou a ganhar fama de chata”, diverte-se Marcia.

A treinadora confessa que, em alguns momentos, avaliou que Barbara teria chegado a seu auge, e que lá estacionaria. “Sempre que pensava assim, ela me surpreendia. Em um momento, melhorou a flexibilidade. Num outro, começou a fazer elementos mais difíceis. Aí teve uma fase em que ela cresceu na parte artística: melhorou sua expressividade, passou a parecer mais madura em quadra”.

É por todos esses motivos que Márcia acredita firmemente nas possibilidades de sua pupila em maio, mesmo que ela não possa treinar tanto como gosta. “Respeito muito as concorrentes, é claro, mas existe uma possibilidade de classificação olímpica para a Barbara, sim. Ela precisará de muita frieza e terá que cravar as quatro séries. Já pedi à psicóloga para fazer um trabalho com ela – terá que se sentir segura, mesmo sem poder treinar tanto”.

Barbara acredita, é claro, que pode dar certo. “No esporte, estamos acostumados a lidar com adversidades, aprendemos a ser resilientes”.

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